Desde o final de 2007, quando as operadoras de telefonia celular começaram a oferecer o serviço 3G no Brasil, o salto foi espantoso.
Se as contas da Anatel estiverem corretas (alguns ajustes metodológicos ainda estão sendo feitos), existem atualmente cerca de 4,6 milhões de usuários com terminais (tanto handsets quanto modems USB) com capacidade de ter acesso às redes de dados das operadoras.
Estima-se que destes, cerca de 3,5 milhões sejam efetivamente usuários dos serviços. Não existe registro de serviço de acesso à Internet com crescimento tão intenso em tão pouco tempo. Só de terminais de acesso USB, a Anatel diz que existem 3,2 milhões comercializados no país até abril.
Garantir a qualidade dos serviços de transmissão de dados e poder expandi-los é, hoje, o principal desafio das operadoras móveis em relação às suas redes móveis.
Segundo Márcio Nunes, diretor de engenharia de rede da Claro, primeira operadora a lançar a rede 3G no país, houve uma feliz surpresa com a demanda. Acontece que o nosso tráfego de dados aumentou 25 vezes depois que passamos a oferecer o serviço 3G, e a maior demanda vem do uso dos modems, pondera.
Esse é o problema: uma rede que até então estava dimensionada para atender às demandas do serviço de voz é, hoje, uma rede cada vez mais sobrecarregada com o tráfego IP gerado pelo acesso à Internet.
Há 6,7 milhões de usuários 3G na América Latina, metade no Brasil. A grande surpresa tem sido o desempenho das vendas de modems USB, diz Erasmo Rojas, diretor da GSM Association para a América Latina.
O primeiro desafio das empresas é investir em capacidade de backhaul, ou seja, de uma rede interligando as ERBs para dar suporte a essa demanda. Segundo Maurício Cascão, responsável pela área de inovação tecnológica da TIM, nas redes GSM, dois links E1 por BTS (base-station, ou ERB) eram suficientes para dar conta do recado. Nas redes 3G, são necessários até 15 E1s. Cada link E1 tem uma capacidade de cerca de 2 Mbps, o que mostra o quanto a capacidade de rede para atender ao tráfego de dados torna-se ainda mais crítico em redes 3G.
Segundo Hermano Pinto, head de estratégia para a América Latina da Nokia Siemens Networks (NSN), existe um efeito de disponibilidade de banda: quanto mais se oferece para o usuário, mais ele usa. Quanto mais as pessoas se acostumam a usar, mais sobrecarrega a rede, explica. Ele diz que a experiência brasileira com 3G está sendo mais intensa do que em outros países por conta dos terminais de acesso USB, que têm um outro padrão de uso. Backhaul, de uma hora para outra, se tornou um problema. As empresas compram de fixas e constroem redes próprias, e tem que ser um backhaul IP, Ethernet. Não basta ser um link TDM como era nas redes 2G, diz.
Não é por acaso que a TIM, por exemplo, planeja assumir a rede da Intelig e está construindo rede própria, assim como todas as outras operadoras.
O desafio torna-se maior quando se leva em conta que as empresas, em breve, começarão a ter metas de cobertura da rede 3G também , o que coloca o problema do backhaul para as redes 3G em um nível ainda mais crítico.
Existe também uma discussão que já se coloca sobre qual os próximos passos da evolução tecnológica das redes de telefonia celular.
A maior parte das empresas está hoje implementando redes HSPA, em linha com o desenvolvimento das redes celular em todo o mundo. São redes que permitem, dependendo da versão da tecnologia e da configuração das redes e das frequências, até 14 Mbps. No Brasil nenhuma operadora trabalha com essa capacidade, e o serviço ofertado é limitado a 1 Mbps de velocidade de download.
O caminho natural é a evolução desta tecnologia, em um processo que envolve a implementação de redes HSPA em versões com maior capacidade, em seguida HSPA+ até que se chegue ao caminho que parece mais natural para as operadoras móveis, que são as redes LTE (Long Term Evolution).
Não é, contudo, uma migração trivial. A evolução para redes HSPA de maior capacidade implica investimentos em backhaul e atualização de softwares e sistemas para dar conta do tráfego.
O mercado de 3G está muito no começo.
Agora, falta monetizar o investimento feito, que não foi pequeno, e tirar o máximo da tecnologia implantada, diz Cascão, da TIM. De fato, os investimentos não foram pequenos, e em 2008 foram da ordem de R$ 9,1 bilhões, o que só havia sido feito em 2004, no auge da implantação das redes de SMP.
A gente tem que se preocupar com os próximos dez anos, mas não pode esquecer que foram feitos investimentos que ainda não foram pagos. Nos próximos dois ou três anos, não se fala em 4G, afirma o executivo da TIM.
Estamos com 3G e HSPA há um ano e meio, e pensamos em fazer a evolução para HSPA+. Existe um passo evolutivo natural que são as redes LTE, mas isso é mais para frente, deve demorar um pouco mais, diz Márcio Nunes, da Claro.
Na verdade, a questão da evolução das redes de terceira geração dependerá do uso que as pessoas fizerem das redes e da intensidade dos serviços. Existe um certo consenso entre técnicos e especialistas que a percepção de velocidade de navegação, a partir de uma determinada velocidade de acesso, é muito mais em função da capacidade de processamento dos dispositivos do que da rede.
No caso de handsets, mesmo hoje a navega ção em redes WiFi (em tese, mais velozes) e em redes 3G HSPA, quando a conexão é de qualidade, é pouco perceptível. A questão é que aplicativos e conteúdos serão colocados.
Se houver, por exemplo, uma tendência de uso das redes 3G para downloads de música, este é um serviço que demanda capacidade da rede. Já acesso a redes sociais e a mensagens instantâneas é algo que tem um menor consumo de banda.
Vídeo é um serviço que exige muito da rede, assim como videochamada.
Tudo depende do uso que as pessoas farão dos handsets mais sofisticados.
E a tendência clara é que as pessoas usem, a cada dia, serviços que consomem mais banda.
Mas o que desequilibra qualquer projeção de dimensionamento e da capacidade da rede é mesmo o acesso por modem 3G.
Hermano Pinto, da NSN, lembra que em função do barateamento do acesso 3G e do custo dos notebooks, já existe uma parcela significativa dos usuários que tem a rede móvel como única forma de conexão, usando inclusive para serviços de consumo intenso de banda, como peer-topeer.
Quando o tráfego de dados fixo cai para a rede de celular, a coisa fica bem mais crítica, diz ele, lembrando que muitas operadoras sentiram na pele esse problema quando a rede do serviço de ADSL Speedy saiu do ar em São Paulo.
Também existe a tendência crescente de que as conexões 3G sejam embarcadas em dispositivos diversos, não necessariamente telefones. São aplicações de rastreamento, telemetria, controle à distância de máquinas, terminais móveis de atendimento e uma série de serviços que precisam de mobilidade e conectividade e que devem recorrer às redes das operadoras de celular.
As redes hoje estão dimensionadas para download. Mas em aplicações empresariais haverá maior consumo de capacidade no upload. As redes atuais não foram pensadas para uma arquitetura IP plena como é a LTE, diz Roberto Falsarella, especialista em redes wireless da Alcatel-Lucent.
Para Maurício Cascão, da TIM, boa parte do sucesso ou fracasso de determinadas aplicações depende, também, de como o usuário acabará interagindo com os dispositivos.
Se iremos para o HSPA+ ou direto para o LTE, tudo é uma questão de como estarão os handsets mais adiante. É a mesma discussão que se teve na migração do GSM para o 3G.
Falava-se em colocar um EDGE mais acelerado, que nem foi necessário, diz. Para ele, a sensação de velocidade do HSPA+ depende muito mais dos handsets do que da rede. O usuário precisa de tanta velocidade? Que aplicações demandarão essas taxas de transferência? Machine to machine é importante, mas qual vai ser a demanda real?, indaga.Tudo depende de uma dinâmica entre o operador, o fornecedor de rede e o de handset. E quem manda é o usuário, conclui Cascão.
São dúvidas que estão nas cabeças de todos os operadores.
Existe também um próximo passo natural na evolução das redes que é no sentido de adensar a cobertura e garantir aos usuários das redes 3G conexões mais eficientes. Uma das tecnologias para permitir isso são as femtocells, ou femtocélulas. São pequenas estações transmissoras 3G do tamanho de um transmissor WiFi que, conectadas a uma rede banda larga na casa do próprio usuário, por exemplo, fazem a conexão direta entre ele e o backhaul da operadora. É como se a banda larga fixa do cliente fosse usada como backhaul de uma pequena ERB instalada dentro da casa do usuário.
Mas por que alguém que tem banda larga em casa teria uma femtocell? Existem alguns modelos de negócio na mesa. Por exemplo, a operadora pode oferecer ao usuário tarifas mais baratas caso ele compartilhe a conexão de sua femtocélula com vizinhos, por exemplo.
Ou poderia oferecer aos usuários daquela femtocélula serviços diferenciados, como indicador de presença, SMS programado, número fixo virtual e outros serviços avançados.
O aspecto complicado das femtocélulas é que hoje elas dependem da qualidade das redes fixas, e não existe nada que regule essa qualidade. Também depende da capilaridade das redes fixas de banda larga, explica Falsarella.
As femtocélulas hoje estão padronizadas para 3G e recebem o nome de Home NodeB.
Custam entre US$ 200 e US$ 300 e ainda há poucas operadoras apostando nesse modelo.
Femtocell é uma coisa que já estamos estudando, mas temos algumas questões a enfrentar. Há dúvidas técnicas, já que ampliamos a cobertura indoor, mas parte da rede fica na mão de terceiros, o que pode prejudicar a nossa oferta, diz Nunes, da Claro.
As femtocélulas, de todo modo, trazem para as operadoras de telefonia celular uma mudança de paradigma que terá que ser enfrentada no momento em que as redes migrarem para a quarta geração, para as redes LTE: a transformação de um ambiente em que as redes estão baseadas em circuitos de voz para um ambiente totalmente IP.
Existe um grau de inteligência nas redes IP que as femtocélulas já utilizam, que é a capacidade de se comunicarem entre si e fazerem ajustes automáticos em função da demanda. Isso acontecerá nas redes LTE, diz Falsarella.
Na banda larga móvel, talvez o modelo seja outro, um modelo baseado no uso do protocolo IP, com a voz sendo uma commodity em cima disso. Na conectividade móvel, não existe plena mobilidade, mas nomadicidade, ou seja, o usuário para para se conectar, mas pode fazê-lo em qualquer lugar. O mundo da Internet é diferente do mundo de voz, diz José Geraldo Almeida, gerente de Novos Negócios da área de Home & Networks Mobility da Motorola.
Mas o maior e mais complicado passo para a evolução das redes 3G no Brasil terá que ser dado no momento em que houver (se houver) um congestionamento do espectro hoje disponível. Em diferentes manifestações públicas, operadoras como a TIM ou mesmo a associação Acel, que representa os operadores de telefonia celular, estimam que haverá uma sobrecarga da rede a partir de 2011. A partir desse ponto, não será mais possível, dizem, dar vazão à demanda por conexão a partir das redes 3G.
Existe, é claro, um jogo retórico em torno dessas previsões alarmistas.
Existe, certamente, um momento em que a capacidade da rede estará saturada, mas certamente não será o caos, pois as próprias empresas têm como ajustar suas redes de outras maneiras.
As redes HSPA e HSPA+ devem ser suficientes para as atuais demandas, mas para coisas mais sofisticadas, precisa de LTE e de mais espectro.
Para 75% da demanda que virá, as redes HSPA e HSPA+ serão suficientes, mas para o resto não. É imprescindível uma faixa de 20 MHz em um novo espectro, diz Erasmo Rojas, da GSMA, que está em uma campanha aberta pela obtenção desse novo espectro.
A batalha no Brasil se dá em torno do espectro de 2,5 GHz (ver matéria nesta edição), o que não quer dizer que outras alternativas não surjam até que esse momento de congestionamento aconteça. As empresas fornecedoras e operadoras estão, desde já, tentando garantir uma reserva de espaço, mas é fato que a primeira operação LTE comercial do mundo (da Verizon, nos EUA), por exemplo, será na faixa de 700 MHz, o que deve forçar o desenvolvimento de equipamentos nessa faixa. Também se espera o desenvolvimento de tecnologia LTE para as faixas hoje utilizadas no GSM (850 MHz, 900 MHz, 1,8 GHz, 1,9 GHz e 2,1 GHz), o que aliviaria também a pressão por espectro.
Mas fora a questão geopolítica de garantir já um quinhão no espectro, o que mais preocupa as empresas é o equilíbrio entre o retorno dos investimentos feitos hoje nas redes 3G com as necessidades de expansão desta rede, até por obrigações regulatórias, os desafios de ter um backhaul consistente com o tráfego de dados e os investimentos que teriam que ser feitos no futuro, na aquisição, se for o caso, de mais espectro, e principalmente na adaptação das redes para as tecnologias HSPA + (o que pode ser feito quase que apenas por software) e LTE (o que envolve investimentos bem mais pesados). Tudo isso já está na mesa com apenas um ano e meio de implantação das redes 3G no Brasil.
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