LEONARDO SOUZA
VALDO CRUZ
DA SUCURSAL DE
BRASÍLIA
Em depoimentos à Justiça italiana, ex-executivos da TI revelam que Vivo,
Telefônica e Telmex também foram investigada.
Entre as diversas
atividades clandestinas estavam a invasão de computadores de empresas
concorrentes e o furto de documentos
Em depoimentos à Justiça italiana obtidos pela
Folha, ex-executivos da Telecom Italia (TI) revelam, em detalhes, que a
operação de espionagem montada pela companhia no Brasil era muito mais
abrangente do que se imaginava.
Sabia-se desde 2004 da guerra de
contrainteligência entre a TI e o Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas, pelo
controle da Brasil Telecom, que contratara a agência de investigação Kroll para
bisbilhotar os italianos, atingindo também integrantes do alto escalão do
governo Lula. Pela primeira vez, contudo, vêm a público no Brasil relatos da
atividade clandestina contra outras companhias: Vivo, Telefônica e Telmex (Claro
e Embratel).
Giuliano Tavaroli, Fabio Ghioni e Angelo Jannone, todos
ex-dirigentes da TI, contam, nos testemunhos aos quais a Folha teve acesso, como
invadiram as redes de computadores dos adversários, admitem furto de documentos
e falam até como um deles foi usado como "isca" pela Polícia Federal para
prender um agente da Kroll no Rio de Janeiro.
Os três foram denunciados pelo
Ministério Público de Milão em julho do ano passado, com outros 31 envolvidos no
caso, por violar sistemas de informática e fazer escutas ilegais contra pessoas
na Itália e no exterior em defesa dos interesses da TI.
Eles foram afastados
da empresa italiana, cuja direção atual costuma dizer que os episódios
aconteceram em administrações anteriores.
No Brasil, a TI é dona da operadora
de telefonia celular TIM. Foi por muitos anos também acionista da Brasil
Telecom, numa sociedade conturbada marcada por brigas com Daniel Dantas e os
fundos de pensão estatais (Previ, Petros e Funcef).
Além dos testemunhos,
prestados em 2007, a polícia italiana também apreendeu com os investigados CDs e
pen drives com os arquivos extraídos das companhias adversárias. Os documentos
são listados no processo, que tramita no Tribunal Civil e Criminal de Milão. A
reportagem teve acesso a mais de 700 mil páginas reunidas pela Justiça
italiana.
Há e-mails, arquivos de texto, planilhas etc. No processo, os
documentos são transcritos apenas de forma genérica.
"No que concerne ao
material subtraído da sociedade Vivo e Telmex efetivamente lembro que [Giuliano]
Tavaroli anunciou a exigência de adquirir informações sobre vários concorrentes
no Brasil, [...] de recorrer a ataque preventivo contra concorrentes
particularmente aguerridos [...]", contou Ghioni, ex-vice-diretor de Segurança
da TI.
Ele se reportava diretamente a Tavaroli, então diretor mundial de
segurança da companhia e apontado pelo Ministério Público de Milão como o cabeça
do esquema de espionagem da TI.
Ghioni, por sua vez, era o principal
integrante da "Tiger Team", grupo de hackers comandado por Tavaroli. "No que se
refere à sociedade Vivo, poderia tratar-se de material subtraído no local,
enquanto em relação à Telmex é possível que tenha sido interceptada a webmail",
completou Ghioni.
Na casa de Tavaroli foi encontrado um pen drive com vários
documentos da Vivo, controlada pela espanhola Telefónica e pela Portugal
Telecom.
Na casa de outro membro da "Tiger Team", Andrea Pompili, foi
apreendido um CD com arquivos da Telefónica aparentemente confidenciais, segundo
a Justiça italiana.
"No suporte estão de fato memorizados os resultados dos
desvios [...] na Telefónica [...] contendo informações provavelmente reservadas
e obtidas presumivelmente através de manipulação dos URL [endereços na
internet]."
Diversos meios
Ghioni explicou como se davam as
invasões, podendo ser adotados diferentes meios, dependendo das circunstâncias.
Um dos mais empregados ocorria da seguinte forma: eles criavam um e-mail
fictício igual ao de uma pessoa conhecida do alvo desejado. Era então enviada
uma mensagem contendo um programa espião chamado "animaletto.txt".
Como o
remetente parecia confiável, o destinatário abria o e-mail, dando-se então a
instalação do "spyware", que passava a remeter para o hacker os arquivos
contidos no computador atacado.
Para dificultar a origem da pirataria
telemática, caso fosse descoberta, Ghioni usava servidores (computadores que
proveem dados e serviços a redes como a internet) localizados nos Estados
Unidos, Coreia, Malásia e Tailândia.
Em 2005, os fundos de pensão, em acordo
com o Citibank, conseguiram destituir o Opportunity da administração da Brasil
Telecom. Foi então selecionada a consultoria Angra Partners para gerir a
BrT.
Os integrantes da "Tiger Team" também invadiram os computadores da Angra
Partners em 2005, segundo admitiu Ghioni em seu depoimento à Justiça
italiana.
Em 2004, a PF iniciou a Operação Chacal, que investigou suposta
atividade ilegal da Kroll no Brasil, a mando de Daniel Dantas. Paralelamente ao
trabalho da PF, os italianos promoveram uma série de ações contra os agentes da
Kroll. Numa delas, em um hotel no Rio, invadiram o computador de um deles e
roubaram vários arquivos, que depois foram selecionados e gravados em um CD
entregue à PF.
Em outra passagem, Angelo Jannone, ex-chefe da Segurança da TI
para América Latina, ajudou os policiais brasileiros a prender um colaborador da
agência americana de investigação. "Eu tive de servir de isca para a Polícia
Federal", contou Jannone à Justiça italiana.
Nenhum comentário:
Postar um comentário